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A matéria que o aluno valoriza menos no primeiro ano – e que explica a diferença aos trinta

Nos primeiros semestres de Direito e de Economia, as disciplinas do Core Curriculum costumam ser as menos valorizadas pelos alunos. Diante de Direito Civil ou de Microeconomia, matérias de utilidade visível e imediata, Filosofia e Antropologia aparecem como um desvio: algo que se cursa porque consta da grade, enquanto a formação considerada decisiva aconteceria em outro lugar.

Essa percepção é compreensível. Aos 18 anos, o estudante avalia o que estuda pelo critério de que dispõe: a proximidade entre o conteúdo da aula e a profissão que imagina exercer. Por esse critério, uma discussão sobre o que é o justo tem menos peso do que um artigo do Código Civil.

Nas instituições que adotam esse modelo há tempo suficiente para acompanhar seus egressos, observa-se que a ordem se inverte. Quando o exercício profissional começa, o conhecimento técnico é justamente o que se atualiza, se substitui e se encontra com facilidade. O que permanece — e o que passa a explicar a diferença entre profissionais igualmente competentes — é aquilo que o Core formou.

Um egresso do Core Curriculum da Universidad de Navarra, universidade parceira da Belavista, descreve essa mudança:

“No começo você se pergunta: que sentido tem estudar essas questões, se o que me interessa é uma formação técnica? Mas conforme os cursos avançam e você começa a exercer a profissão, percebe que essas coisas não ficam na sala de aula — elas te dão ferramentas para resolver as questões. Na faculdade nos ensinam como se fazem as coisas; nessas aulas, a pensar os porquês.”

O que permanece

O estudante de Direito aprende cedo que o direito é o justo do caso concreto. Mas o que é o justo? Trata-se de uma pergunta filosófica, e o profissional que não a reconhece como tal decide sem saber sobre o que está decidindo. O Core Curriculum forma quem identifica a pergunta, sabe articulá-la com rigor e se posiciona diante dela — no escritório, na mesa de negociação, no órgão público, na empresa.

Dessa formação decorre uma segunda aquisição. Nas aulas do Core, na maior parte das vezes não há resposta certa a ser reproduzida em prova: há debate conduzido por um professor que aprofunda, questiona e cria tensão entre posições divergentes. Duas habilidades pouco comuns nascem daí — argumentar sob pressão, com clareza e sem hostilidade, e compreender por que alguém pensa ou age de determinada forma, mesmo sem concordar com ele.

Saber pensar e saber agir, contudo, não são suficientes. É preciso querer. As disciplinas de Ética e o programa de Literatura e Humanismo trabalham essa dimensão: a sensibilidade e o senso de responsabilidade pessoal que convertem um conceito compreendido em conduta efetiva. O aluno que discutiu dilemas morais a partir de personagens complexos, e não apenas de teorias fechadas, incorpora aquelas questões à própria experiência. Anos depois, diante de uma decisão difícil, o discernimento antecede o raciocínio: ele reconhece que aquilo é bom, ou que não é, porque já treinou esse julgamento muitas vezes.

Por que o Core não é optativo

É essa inversão que justifica a obrigatoriedade. O Core Curriculum atravessa os cinco primeiros semestres dos dois cursos, sem exceção, porque não se pode pedir a um aluno de primeiro ano que decida hoje sobre aquilo que só conseguirá avaliar plenamente aos trinta. A instituição assume essa responsabilidade em seu lugar.

Trata-se de uma escolha com consequências: a carga horária dedicada ao Core é carga horária que não se destina a conteúdo técnico. Assumimos esse custo de forma consciente. O conhecimento técnico está cada vez mais disponível e, por isso mesmo, cada vez menos distintivo. O que se tornou escasso é o que não se automatiza: analisar um caso concreto, ponderar consequências, comunicar-se com precisão, decidir e responder pela decisão.

“O que vai fazer diferença lá na frente é a capacidade de tomada de decisões complexas. É a consciência do quanto aquela decisão impacta a vida de pessoas — e compreender o seu papel diante daquela situação, como líder e como protagonista.”

Milena Seabra, Diretora Executiva da Faculdade Belavista

No momento em que se delega o pensar, é o pensar que se perde. O que nossos alunos levam do Core Curriculum é precisamente aquilo que nenhuma tecnologia assume em seu lugar: a compreensão de que toda decisão profissional afeta, em algum ponto, a vida de alguém — e a formação necessária para tomá-la à altura dessa responsabilidade.

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