No novo episódio do Podcast Belavista, dois alunos da primeira turma contam como o Core Curriculum, a formação em filosofia e literatura da faculdade, mudou a forma como pensam e decidem.
Daniele e Miguel fazem parte da primeira turma da Belavista. Ela estuda Economia; ele, Direito. Os dois estão no sexto semestre e acabam de concluir o Core Humanidades, a trilha de filosofia e literatura que todo aluno percorre nos primeiros anos da faculdade.
No novo episódio do Podcast Belavista, já disponível no YouTube, eles conversam com o professor Renato Moraes, coordenador do Core Humanidades, sobre o que esses quatro semestres mudaram na forma como pensam, decidem e escutam.
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Abaixo, alguns trechos da conversa.
O que é, afinal, o Core
Quando um amigo pergunta o que é o Core, Daniele responde assim: “É a parte da faculdade que permite a gente dar um passo para trás e pensar: com essas coisas que estou aprendendo, que tipo de profissional eu quero me tornar?”. E resume: “No fundo, tudo se resume a aprender a tomar decisões”.
Miguel vai pela palavra. Core é centro, coração. “O Core é muito mais sobre você do que sobre entender o que Aristóteles diz.”
Na prática, o Core ocupa os quatro primeiros semestres. A cada semestre, há uma disciplina de Humanidades que percorre os grandes temas da filosofia: metafísica, antropologia, ética, teoria do conhecimento e filosofia política. Em paralelo, a disciplina de Literatura e Humanismo dedica quatro encontros a uma única obra por semestre.
No processo seletivo, Daniele tinha uma dúvida: isso não tiraria espaço da parte técnica do curso? A resposta que recebeu mudou sua perspectiva. Direito e Economia são cursos de Humanas; qualquer faculdade teria disciplinas sobre a sociedade. “O que a Belavista faz é que não sejam matérias avulsas, mas um conjunto. Você vai por uma trilha, pensando sobre vários aspectos do ser humano.”
Filosofia que vira decisão
Nas aulas de Humanidades, a filosofia não chega como história das ideias. Chega como caso. Os professores apresentam situações concretas, a turma se divide em grupos, e cada aluno se coloca no lugar dos personagens para defender uma solução.
Miguel conta que, numa aula de ética, perguntou ao professor Guilherme Cunha Pereira quando aplicaria aquilo na vida. A resposta foi uma palavra: “Espera”. Pouco depois, o caso em discussão era o de alguém que esconde uma pessoa perseguida e precisa decidir se mente para protegê-la. “Ali eu entendi que as coisas não são preto no branco.”
No Direito, diz ele, isso aparece todos os dias: a norma é a mesma, mas o caso muda quando envolve um menor, um idoso, um estrangeiro. “A gente fala bastante do método do caso. O método do caso mudou minha vida.”
O coordenador explica a intenção: o objetivo não é dar erudição aos alunos. “A boa filosofia compromete. Se você fala de Bem, de Verdade, de virtude, é normal que a pessoa pergunte: e eu, como fico?”
Convicções firmes, mente aberta
Daniele diz que o Core teve “um papel humilhante, no melhor sentido possível”: o de ensinar humildade. Ela lembra de um caso discutido em aula. Você descobre que o marido de uma amiga a está traindo, e há também uma relação profissional envolvida. Conta ou não conta? Para ela, a resposta era óbvia: contar. Minutos depois, havia no quadro uma lista de 13 motivos para não contar.
“É muito importante ter convicções firmes e saber explicá-las. Mas, na prática, eu resumiria tudo em abertura: você precisa estar aberto ao que a realidade vai te dizer em cada caso.”
Miguel chegou à faculdade com bastante leitura filosófica e uma visão fechada. “Achava que era Aristóteles, São Tomás e acabou.” O Core apresentou outros autores e outras escolas. Nas aulas sobre o ser humano, a turma ouvia Aristóteles, depois Kant, depois Sartre. Os professores defendem suas posições, mas deixam claro que o aluno não precisa concordar, desde que argumente.
Os alunos não romantizam: as discussões de filosofia política eram acaloradas. “Não é um jardim mágico em que todos vivem em harmonia”, diz Daniele. “Mas existe um princípio de que todo mundo deveria se sentir à vontade para falar.” Miguel cita a semana em que o professor Todd Henderson, da Universidade de Chicago, deu aulas de Law & Economics na Belavista, com fundamentos bem diferentes dos que a turma vinha estudando. “A faculdade não disse: ‘opinião diferente, vamos negar’. Disse: vamos trazê-lo para cá e discutir.”
O fundamento do Direito e da Economia
Para o coordenador, o Core não compete com a formação técnica: ele a sustenta. “Quem não conhece o ser humano tem um teto. Muitos problemas do Direito são problemas de uma visão equivocada do ser humano. E na Economia você pode achar que ele age sempre por utilidade. Isso é verdade em alguns casos, mas não é toda a verdade.”
Miguel percebeu isso no estágio. “Atrás de todo contrato, de toda lei, de todo caso, sempre existem pessoas. Mesmo numa pessoa jurídica há pessoas, há famílias.” Ele lembra uma ideia do professor Rafael Ruiz nas aulas de Literatura e Humanismo: mais do que autoconhecimento, “alterconhecimento”, conhecer-se a partir do outro.
Daniele vê a Economia cada vez mais pragmática, o que tem vantagens. Mas conta que, em alguns ambientes, já ouviu cálculos que equivalem uma vida humana a centenas de milhares de camarões. Sem desmerecer quem pensa assim, ela diz que o Core lhe deu repertório para dar um passo atrás: “Quais são as premissas por trás disso? A longo prazo, elas levam a sociedade aonde a gente quer chegar?”. E conclui: “Conhecer a filosofia me torna uma economista muito melhor. Quando falam de vida humana no contexto do utilitarismo, eu sei o que isso implica. Quando falam em outro contexto, também sei.”
O que eles teriam perdido
Perto do fim, o professor pergunta o que os dois teriam perdido sem o Core. Miguel fala de si mesmo: “Eu era uma pessoa muito mais fechada. Hoje estou mais aberto, mais tranquilo comigo mesmo”. Daniele é direta: “Eu seria uma pessoa muito mais bitolada”. O que mais ficou, diz ela, foi uma postura: o olhar curioso e a capacidade de admitir “nunca pensei sobre isso” diante de quem sabe algo que ela não sabe.
O coordenador lembra que o Core da Belavista se inspirou em programas de universidades de outros países, mas com uma marca própria. Ler grandes obras e debater já é valioso; a diferença está em buscar a verdade, e não o debate pelo debate. “O pensamento clássico é perene. Não é uma moda, nem algo arqueológico.”
Ele não esconde a exigência. O Core puxa: é preciso ler e estudar. A ambição, em suas palavras, é que os alunos estudem “no nível dos melhores estudantes das melhores faculdades do mundo”. E a primeira turma mostrou até onde se pode chegar. “O que eu mais aprendi com vocês é que podemos ir longe.”
Assista à conversa completa
Os trechos acima são uma parte de quase uma hora de conversa. No episódio, Daniele e Miguel percorrem cada etapa do Core, da metafísica à filosofia política, e contam os casos que mais os marcaram.
▶ O episódio está disponível no canal da Belavista no YouTube:
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